Não basta ser apenas Campeão

Márcio e Miguel Indurain

José Maria Jimenez (já falecido), Miguel Indurain e Márcio May - Atrás: Prudêncio Indurain e Daniel Rogelin

Corri durante muitos anos e tive contato com diversos atletas profissionais que eram grandes campeões da época. Neste meio conheci bons e maus ciclistas, não me refiro às condições físicas dos atletas, mas sim ao caráter de cada um. Alguns chamados de campeões, lamentavelmente não merecem esse titulo.

Quantas vezes idolatramos um campeão, fazemos dele um ídolo e depois quando o conhecemos na intimidade, percebemos que ele não mereceu os nossos aplausos, mas também é gratificante quando o nosso ídolo é mais que um campeão, em todos os sentidos.

Na olimpíada de Atlanta, em 1996, eu, o Daniel Rogelin e o Valdir Lermen estávamos jantando em um dos restaurantes da Vila Olímpica quando percebemos que na mesa ao lado estava o Dinamarquês Bjarne Riis, que poucos dias antes havia vencido o Tour de France, quebrando o reinado do Espanhol Miguel Indurain. Nós nos apresentamos e pedimos para bater uma foto, afinal ele era o cara do momento no ciclismo. Ele não foi nenhum pouco simpático, mas batemos a foto mesmo assim. Naquela época, não tínhamos máquina fotográfica digital e só fui revelar o filme dias depois. Quando peguei a foto, fiquei totalmente decepcionado, pois ele não foi capaz nem de olhar para a foto. Rasguei a foto no mesmo instante e joguei no lixo e naquele momento vi que era um ciclista que não merecia ser meu ídolo. Anos depois ele mesmo admitiu ter feito o uso de doping e que sua camisa amarela estava jogada na garagem de sua casa e poderiam pegar se quisessem. A UCI retirou se título, depois voltou atrás, pois segundo as regras já haviam passado mais de 10 anos e por isso não poderia mais ser alterado.
O oposto ocorreu um ano antes, na Colômbia onde treinamos por dois meses antes do mundial de 1995, que definiria as vagas para as Olimpíadas de 1996 em Atlanta. Gostaríamos de conhecer nada mais que Miguel Indurain, que havia acabado de vencer o seu quinto Tour de France consecutivo. O Gabriel Sabião, que chegou a correr na equipe Reynolds junto com Indurain, combinou que passaríamos lá no hotel para sairmos treinar juntos. Era véspera do campeonato Mundial de contra-relógio. Porém, quando chegamos ao hotel, havia mais de uma centena de fotógrafos e cinegrafistas do mundo todo, além de centenas de pessoas curiosas. Indurain tinha dificuldades de sair do hotel. Seu irmão Prudêncio, que era parecido com ele, saiu pela porta da frente confundindo os repórteres enquanto Miguel saía pela porta dos fundos. Quando percebemos, saímos atrás dele na estrada. Logo alcançamos junto com os demais atletas da Banesto e todo o tumulto veio atrás. Fomos conversar com ele que foi muito simpático, inclusive pediu desculpas por ter saído daquela forma do hotel, mas era o único meio para conseguir treinar. Também se desculpou por não poder parar para bater uma foto com a gente, pois iria virar tumulto. Sendo assim, batemos algumas fotos pedalando e foi muito simpático na conversa. Ele estava com a bike de contra-relógio e no dia seguinte foi campeão mundial da modalidade.
A sua humildade e simpatia mostrou o verdadeiro campeão que é e porque merece ser um grande Ídolo.


Esta entrada foi publicada em Opinião e marcada com a tag , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>