Fair Play – eis a questão

Momento da queda da corrente de Andy Schleck

No Tour de France de 2010, um dos assuntos mais comentados foi o Fair Play. Na 15ª Etapa do Tour, o Luxemburguês Andy Schleck era o líder com 31 seg de vantagem sobre o Espanhol Alberto Contador, mas na última subida do dia, quando Schleck tentava um ataque, a corrente de sua bicicleta caiu e Contador aproveitou a chance para abrir vantagem, chegando com 39 segundos de diferença e conquistar a liderança. Contador recebeu muitas críticas por não ter feito o “fair play”.

Muita gente acha que ele deveria ter esperado Andy Schleck. Outras pessoas acham que ele fez da forma correta, pois estava em um momento decisivo e não era hora de esperar. De noite no hotel, Contador fez um vídeo se desculpando pelo ocorrido, falando como o fair play é importante e que talvez tenha errado em não esperar. No final das contas foi campeão do Tour graças aos 39 segundos que conseguiu nesta etapa, pois segundo os matemáticos, sem esses segundos, a vitória do Tour ficaria para Andy Schleck por 22 centésimos.
Cada pessoa tem a sua opinião e em uma prova de ciclismo existem momentos que você pode esperar um adversário que teve algum problema, pois não vai interferir no resultado final, porém existem momentos que são decisivos e que não se pode esperar pelo adversário.
Comigo ocorreu uma vez na Volta do Litoral do Paraná, eu estava em segundo na classificação geral quando largamos em Curitiba em direção a Garuva-SC. A etapa mal tinha começado quando um policial que “deveria manter a segurança dos ciclistas”, queria fazer passar alguns carros e caminhões pelo pelotão, algo sem necessidade pois em 5 km  mudaríamos de rodovia. Ele chegou ao lado do pelotão forçando os ciclistas a irem para a direita, porém não havia espaço no momento. O Policial então jogou a sua moto contra a gente, bateu em meu guidão e caí com mais outros ciclistas. Foi uma queda feia, ainda fiquei discutindo com o policial por um tempo até que o meu companheiro de equipe na Memorial, o Mindu (Anderson Oliveira) que estava me esperando para me ajudar me convenceu a seguir, mesmo machucado. O pelotão inteiro esperou pela gente. Eu terminei esta etapa no pelotão e a tarde venci o contra-relógio e também a classificação geral. O Policial foi retirado da prova.
Outra situação aconteceu na Volta do Uruguai de 1998. Eu havia sido líder por alguns dias e no Contra-relógio o Argentino Jorge Giacinti assumiu a liderança e eu passei para segundo. No dia seguinte estava ocorrendo vários ataques e também fui atacar para tentar recuperar a liderança, quando Giacinti tocou em minha roda traseira e caiu. Como ainda estava longe para a chegada, nós (equipe Caloi) paramos os ataques e esperamos para que ele alcançasse novamente o pelotão e depois retornamos a disputa. Aquele gesto foi manchete nos Jornais do Uruguai, pois até aquele dia, sempre que o líder caía ou furava um pneu, muitos ciclistas até gritavam “Vamos que o líder caiu!” para motivar a forçar o ritmo e deixá-lo para trás.
São várias situações e cada decisão tem que ser tomada no momento da prova. Nos trechos de paralelepípedos do Tour, Andy Schleck também não esperou Contador que ficou no segundo grupo por causa de uma queda que fechou a passagem. São momentos em que a sorte pode decidir uma corrida.
Texto: Márcio May – publicado na coluna Ciclismo a Fundo na revista Bike Action
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