O Gregário

Márcio May e Morcegão

O ciclismo é um grande exemplo de doação em prol da equipe. Nos esportes coletivos como o futebol ou vôlei, sabemos que o resultado final depende de um conjunto, de uma equipe. Não adianta ter um excelente atacante se não existe uma equipe para dar suporte ou se a defesa é ruim. Quando cada um faz a sua parte, o conjunto funciona e no final o time vence e todos saem campeões.

No ciclismo também existe o trabalho em equipe onde os atletas que chamamos de gregários abdicam do sucesso pessoal para servir a equipe e ao líder. Colocam a cara no vento, neutralizam fugas e ainda buscam água e alimentos. Deixam todas suas forças no meio do percurso para que no final um atleta vença e leve todas as glórias.

Quando comecei a competir, logo fui aprendendo as lições do ciclismo e ser um gregário foi uma dessas lições.

Aprendi que para vencermos, também precisamos ser gregários e ciclistas egoístas não conseguem conquistar os gregários que são tão importantes para um atleta vencer.

Quando as provas eram por etapas onde eu estava preparado para vencer, meus colegas de equipe faziam o máximo para que eu conseguisse economizar forças para chegar ao final inteiro para decidir a prova.

Da mesma forma, quando as provas não eram da minha característica ou eu não estava na melhor forma para vencer, trabalhava como gregário para que outro companheiro de equipe vencesse. E se este companheiro de equipe vencia, eu também me sentia campeão, pois fui parte desta vitória. Um líder precisa confiar nos seus gregários e também precisa que eles confiem no líder.

Como forma de compensação por este esforço, todos os prêmios conquistados eram divididos entre todos, inclusive com a equipe de apoio, como mecânico e massagista.

Lembro de um prova 9 de Julho em Interlagos em 2002 quando eu integrava a equipe Memorial de Santos. Nosso líder seria o Rodrigo de Mello Brito, o Morcegão que era quem tinha mais chances de vencer a prova se fosse decidida no sprint final. Faltando duas voltas para o fim, fui ao meio do pelotão e falei para ele ficar na minha roda que iria levá-lo para frente e deixá-lo em uma melhor posição para o sprint. Fui para frente e faltado um pouco menos que um quilômetro para a chegada, peguei a ponta do pelotão com ele na minha roda e levei no ritmo mais forte que eu consegui. Faltando 200 metros todos sprintaram e Morcegão foi o campeão. Nestes 200 metros, mais de 20 ciclistas me passaram. Depois da prova ele contou que não tinha visto nada nas duas últimas voltas a não ser a minha roda traseira. Sua confiança em mim era tão grande que podia concentrar-se ao máximo e eu também dava o máximo sabendo que ele poderia vencer e me senti um vencedor mesmo sendo gregário.

Texto: Márcio May – Publicado na revista Bike Action – Coluna Ciclismo a Fundo

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5 respostas a O Gregário

  1. Jesaias disse:

    Parabéns pelo texto, compartilhar experiências é uma virtude meu amigo.Este artigo foi tão interessante para mim que prático ciclismo de estrada amador, me permitiu deslumbrar o momento de sua passada para manter o Morcegão em frente ao sprint final. Realmente foi um belo trabalho! Parabéns e obrigado por compartilhar conosco!
    Abraços

  2. Obrigado por todas as vitorias que vc me proporcionou! Você é um cara especial! Muito bonito seu texto. De fato sempre confiei em vc e nos demais companheiros. Márcio grande abraço e muita saudades das embaladas.

  3. settle debt disse:

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  4. Doorologist
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  5. eloi rego disse:

    Marcio Boa Tarde

    Lendo o texto vejo o quanto é importante trabalhar em equipe e alem do mais o quanto vale um amizade, que para ser campeao voce nao precisa sempre ser o primeiro e sim preservar a unidade. Esta sera a minha primeira participaçao na prova 9 de julho, correrei na Open Senior, porem estarei sozinho, os demais colegas participarão em outras categorias por motivo de idade, como experiente que tu és, tem alguma dica que como pelo menos terminar as 5 voltas,rsrsrsrsrs.

    Abraços Eloi Rego.

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