Avaliação e prescrição do treinamento em ciclismo de estrada

VO2 max X LACTATO
Os vários métodos de treinamento existentes resultam em diferentes adaptações fisiológicas no organismo do atleta, variando em dependência dos estímulos fisiológicos a que o atleta foi submetido, e a melhora das capacidades físicas está diretamente ligada ao tipo de via metabólica mais utilizada durante as sessões de treinamento, historicamente divididas em três classes: anaeróbia aláctica, anaeróbia láctica e aeróbia.
É importante conhecer quais variáveis fisiológicas são importantes para cada atleta em função do seu tipo de prova, para não submetermos um atleta a testes que não correspondam ao tipo de atividade a que estará sujeito na competição. Os testes devem se aproximar ao máximo do movimento executado no desporto do atleta, não sendo desta forma recomendado, por exemplo, que um atleta da modalidade de ciclismo execute um teste de VO2max em esteira.
Os testes laboratoriais podem fornecer dados importantes para o atleta e o treinador, como por exemplo: quais os pontos fracos e fortes do atleta em determinado esporte, permitindo uma programação dos treinamentos de maneira mais precisa; avaliação do resultado do treinamento através da comparação dos testes realizados antes e depois da execução do programa de treinamento; finalmente, o teste ajuda ainda a educar o atleta sobre a fisiologia do exercício, uma vez que este participa ativamente da coleta, análise e discussão dos dados, o que sem dúvida levará o atleta a treinar com mais consciência (POWERS & HOWLEY, 2000).
A base da teoria do VO2max (consumo máximo de oxigênio) reside no fato de que durante a realização de exercícios há uma elevação da demanda de oxigênio para os músculos em relação ao repouso, provavelmente devido a um aumento da necessidade de energia para a musculatura que está sendo exercitada.
Os primeiros estudos a esse respeito foram de A.V. Hill & H. Lupton, que demonstraram que o VO2 aumenta de modo linear com o aumento da intensidade de esforço. NOAKES; HILL & LUPTON (apud DENADAI, 1995), propuseram que momentos antes do indivíduo atingir a capacidade máxima de trabalho, o VO2 atinge um platô e não aumenta mais, embora ele consiga exercitar-se de modo um pouco mais intenso. Neste ponto é dito que o indivíduo atingiu o VO2max. Este esforço realizado além da estabilização do VO2 é sustentado pelo metabolismo anaeróbio, com resultante acúmulo de lactato intracelular e aumento da acidose, fatores que levarão sem dúvida à exaustão e interrupção da atividade ou diminuição da sua intensidade.
Atualmente alguns autores propõem que se utilize o termo consumo de oxigênio de pico (VO2pico), o qual representa o maior VO2 obtido durante a realização de um exercício até a exaustão, uma vez que somente metade dos indivíduos testados atingem realmente um platô  de VO2 (DENADAI, 2000).
O VO2max pode ser expresso em valores absolutos (l/min) ou em valores relativos ao peso corporal (ml.Kg-1.min-1). Uma vez que a necessidade de energia varia de acordo com o peso corporal, o VO2max é geralmente expresso em valores relativos. Isso permite uma comparação entre indivíduos de tamanhos corporais diferentes, sobretudo quando estes se exercitam em exercícios onde existe a sustentação do peso corporal, como na corrida ou no ciclismo. Na natação, onde não existe sustentação, é mais utilizado o VO2max expresso em valores absolutos (DENADAI, 1995).
Existem dois aspectos importantes a serem observados quando comparamos a validade do VO2max e da resposta do lactato sangüíneo como índices de avaliação aeróbia: um é em relação ao conceito físico ao qual estão associados e sob este aspecto, o VO2max é uma medida da quantidade máxima de energia que pode ser produzida pelo metabolismo aeróbio por uma determinada unidade de tempo. A resposta do lactato sangüíneo é um índice associado à capacidade aeróbia, que indica a quantidade total de energia que pode ser fornecida pelo sistema aeróbio (DENADAI, 2000).
Outro aspecto importante se refere aos fatores que limitam ou determinam estes índices. O VO2max parece ser limitado  pela oferta central de O2, que por sua vez é influenciada pelo débito cardíaco e pelo conteúdo arterial de O2. Este é um fator particularmente limitante em indivíduos treinados, onde embora continuem existindo importantes adaptações periféricas (músculo esquelético) com o treinamento, que podem determinar melhoras na performance aeróbia, o débito cardíaco máximo não permite que o VO2max continue aumentando em função das adaptações provocadas pelo treinamento.
Já a resposta do lactato sangüíneo parece depender mais da capacidade de oxidação do lactato, que é a principal via de remoção deste substrato, já que a sua produção não é modificada pelo treinamento aeróbio. Portanto, uma das principais adaptações do músculo ocorridas em decorrência do treinamento aeróbio, é o aumento da taxa de remoção do lactato sangüíneo durante o exercício, o que resulta em uma diminuição da sua concentração sangüínea para a mesma intensidade de exercício (Idem).
COYLE et al., (apud DENADAI, 1996), analisando 14 ciclistas altamente treinados, que possuíam valores similares de VO2max (65 – 70 ml.Kg-1.min-1), solicitou a todos que pedalassem em uma intensidade correspondente a 88% do VO2max, durante o maior tempo possível. Embora o VO2max tenha sido virtualmente idêntico entre os indivíduos, o tempo para se atingir a fadiga variou mais do que 6 vezes (12 – 75 min).
KOHRT et al., (apud DENADAI, 1996), avaliaram um grupo de triatletas, em quatro momentos ao longo de uma temporada de treinamento (fevereiro, maio, agosto e outubro). Durante este período, apenas o VO2max medido no ciclismo modificou-se significativamente (5%), enquanto os valores de VO2max medidos na esteira e na natação, permaneceram constantes durante todo o período de treinamento, porém houve melhora na performance nos três eventos durante a competição de triatlon.
Segundo DENADAI (1995), este fato pode ser explicado devido ao VO2max ser limitado pelos fatores centrais (débito cardíaco máximo e/ou ventilação pulmonar e difusão alvéolo-capilar), e desta forma as adaptações periféricas (capilarização e atividade enzimática aeróbia) que continuam ocorrendo após meses ou até mesmo anos de treinamento, não são detectadas pelo VO2max.
Assim, fica claro que o VO2max e o lactato podem apresentar  comportamentos diferentes quando utilizados em uma avaliação aeróbia. Segundo DENADAI (2000), a concentração de adrenalina e lactato, a taxa de utilização do glicogênio muscular, a freqüência cardíaca e a pressão arterial sistólica, são menores em indivíduos treinados quando comparados com indivíduos destreinados, exercitando-se no mesmo percentual do VO2max. Outros estudos têm mostrado que alguns indicadores do estresse fisiológico apresentam respostas bem proporcionais quando a resposta do lactato sangüíneo é utilizada para individualizar a intensidade de exercício (DENADAI, 2000). VERKOCHANSKY (1995), afirma que a máxima capacidade de carga quando não acompanhada de acúmulo de lactato sangüíneo é um índice de predição da capacidade de resistência melhor do que o VO2max. Estas informações podem sugerir que a utilização do VO2max como meio de avaliação da capacidade aeróbia em atletas  de alto nível pode não ser tão exata quanto a avaliação do lactato.
ROGERIO MULLER – CREF 0805-G/SC
Assessoria em Treinamento Esportivo para Ciclismo e Triathlon
personal@rogeriomuller.com
www.rogeriomuller.com
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Uma resposta a Avaliação e prescrição do treinamento em ciclismo de estrada

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