Mudanças na vida de um atleta

Era junho de 1986 na cidade de Taió – SC, houve uma corrida de bicicletas sem marchas na cidade. Eu estava com 14 anos, decidi participar e conquistei a minha primeira vitória.
Prova em Salete

Prova em Salete em 1989 - Márcio May - campeão do ranking elite

Nesse dia o ciclismo entrou na minha vida. Há uma coisa dentro de mim muito forte, que me modifica quando estou pedalando. As decisões mais importantes da minha vida foram tomadas enquanto treinava. Às vezes é até engraçado, se estou com um problema, sem saber direito o que fazer, é durante o treino que tudo se resolve. Sempre volto melhor do treino, quer dizer, volto cansado, mas sempre com a cabeça renovada. Acho que as longas distâncias que percorro sozinho faz com que eu analize as coisas melhor, faz com que tudo se organize, o pensamento vai longe e no fim tudo dá certo. Isso sem falar dos treinos com a galera, sempre divertidos e animados.

Márcio May

Márcio May

O ciclismo está em minha vida de tal modo que acho que não existe um Márcio May sem bicicletas, viajens, competições… Como costumo dizer, “essa correria faz parte”, parte de mim. Muitas vezes no meio de uma volta, louco de saudades de casa, parece que vem aquele pensamento: “Até quando?” Mas tenho certeza de que isso se deve à distância, dificuldades, às vezes decepções e é claro a saudade. Mas em casa, o máximo que consigo ficar longe da bicicleta é um dia, se não treino a consciência já pesa e o coração aperta.

Sou assim, louco pelo que faço, sou um completo apaixonado pelo ciclismo. Hoje estou com 35 anos e feliz com o que conquistei pedalando. Consegui vitórias nas principais provas do Brasil e da América do Sul, medalhas em Jogos Pan-americanos e a satisfação de reprensentar o Brasil durante 17 anos, especialmente nas Olimpíadas de Barcelona, Atlanta e Atenas. Conheci mais de 20 países e fiz amigos em várias partes.
Também foi através do ciclismo que conheci minha esposa e construí minha família.
Vinte e um anos se passaram desde minha primeira prova e muita coisa mudou.
Na época competíamos com bicicletas pesadas, a minha era de ferro, deveria ter uns 16 kg. Algo melhor era quadro em cromo-molibdênio e peças de alumínio. Não existia pedal de encaixe. Usava-mos o tradicional firma pé, o taco da sapatilha tinha um frizo para prenser no pedal e era pregado na sola e a tira segurava o pé pessionado no pedal para não escapar. Para trocar a marcha só alavanquinha no quadro, e as catracas, de rosca, eram geralmente de 6 velocidades de 13 a 21 dentes.
O capacete nem se fala, apenas umas tiras que não serviam para nada, pois uma vez caí e bati a cabeça e levei 12 pontos. Saíamos para treinar com ferramentas para poder dar uma endireitada na roda toda vez que quebrava um raio. Treinávamos com pneu tubular, pois não existia pneu clincher na época e passávamos a tarde toda consertando e costurando os tubulares furados.
Pedalando nas estradas somente os atletas, que eram poucos e alguém vestido com roupa de lycra e perna raspada era visto com desconfiança. Hoje centenas de pessoas pedalam não só em competições, mas também pela saúde e lazer. Existem mais equipes estruturadas e algumas provas são transmitidas pela televisão.
Mas chegou o momento de deixar de competir profissionalmente.É um momento muito delicado pois muitas coisas passam na cabeça, o meu acidente me fez parar e refletir muito sobre a minha carreira. Mas a minha decisão já está tomada. A partir de agora vou continuar pedalando, fazendo os treinos com os amigos, mas sem aquela responsabilidade de ter que estar na melhor forma, de obter os melhores resultados. Não vou deixar o ciclismo, tanto que não estou me desligando completamente da equipe Scott, o que faz com que essa transição seja menos dolorida para mim.
Trabalharei com as vendas e marketing dos Selins Fizik e Selle Royal da empresa RoyalCiclo de Rio do Sul – SC e estarei presente nos principais eventos levando a minha experiência aos novos atletas.
Gostaria de agradecer aos patrocinadores que desde o início foram fundamentais para que o sonho pudesse se tornar realidade, aos policiais que fazem a nossa segurança, aos técnicos que me orientaram, amigos, familiares, adversários, companheiros de equipe, mecânicos, massagistas, jornalistas, torcedores, fãs, enfim, a todos que de alguma forma estiveram estiveram presentes nestes 21 anos de carreira:
MUITO OBRIGADO!

 

Esta entrada foi publicada em Opinião e marcada com a tag , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>