O início de tudo

Essa é uma edição muito especial, aniversário da Bike Action e de certa forma é uma data especial pra mim também, pois estou completando 20 anos de carreira.

Márcio May pela equipe de Salete - SC aos 14 anos

Tudo começou no dia 27 de julho de 1986, pouco tempo depois da morte de minha mãe, na cidade de Taió, interior de Santa Catarina, 16 km de Salete*, minha cidade natal.

Nas comemorações da Festa do Colono foi organizada uma corrida para bicicletas comuns. Peguei uma barra circular com freio contra-pedal, tirei os pára-lamas e bagageiro e virei o guidão para ficar parecido com uma speed. Na minha categoria largaram apenas três, mesmo assim estava muito nervoso e a emoção de vencer foi como se tivesse em uma Olimpíada.
Sempre gostei de pedalar, andava com a bicicleta do meu pai de um lado para o outro, empinava e às vezes apostava corridas ao redor da igreja ou da escola com os amigos.
Depois da primeira corrida e com o incentivo de Reinvald Müller**, um apaixonado pelo ciclismo e que inclusive venceu esta prova em duas categorias, continuei treinando e alguns meses depois ganhei uma Caloi 12 azul, de presente de meu pai.
Da esquerda para a direita: Reinwald Muller, Almir da Luz e Rogério Muller, primeiros companheiros de equipe

Da esquerda para a direita: Reinwald Muller, Almir da Luz e Rogério Muller, primeiros companheiros de equipe

Reinvald Müller trabalhava em um Banco em Salete e estava organizando uma equipe para participar do Campeonato Catarinense no ano de 1987. Levei minha bicicleta novinha na casa dele que a depenou. Tirou o protetor de corrente da roda traseira e da pedivela, serrou a manete de freio que ficava na parte de cima do guidão, tirou o pezinho de suporte e ajustou na minha posição. Pronto estava aí a minha primeira bicicleta de corrida, devia pesar uns 15 quilos ou mais, quadro de ferro e peças também. Pedivela com chaveta, aquela cunha que tinha que bater com o martelo e colocar uma porca do outro lado e vivia soltando deixando as pedivelas desalinhadas e há tempos não existe mais. Para mim era a melhor bicicleta do mundo, fiquei triste quando o Müller tirou todos aqueles acessórios, mas ele disse que era para deixá-la mais “leve”.

Comecei a treinar e andava uns 30 km por dia quase tudo de 52 x 14, que era a marcha mais pesada, pois achava que rendia mais, às vezes sozinho, às vezes junto com um colega de aula que também tinha começado a competir comigo.
Nesta época, aos 14 anos, trabalhava no almoxarifado de uma madeireira das 7 horas da manhã até as 15.30. Às 16 horas já estava treinando até as 17.30 e as 18.30 entrava no colégio para voltar para casa depois das 10 da noite. Foi um tempo muito difícil na minha vida, onde aprendi a ter empenho e dedicação nos meus objetivos e o pior, a suportar a perda da minha mãe.
No fim de 1986 teve outra prova em Salete, desta vez com bicicletas de marcha, e venci com duas voltas de vantagem sobre o segundo colocado. Era a certeza de estar no caminho certo.
Troféu da primeira prova vencida por Márcio May

Troféu da primeira prova vencida por Márcio May

No início de 1987 já treinava com mais orientação, usando marchas mais leves e com algum planejamento feito pelo Müller. Fizemos um treinamento de teste para ver se eu tinha condições de competir no campeonato catarinense e me saí muito bem.

Minha primeira prova oficial, na categoria Novatos, foi em Balneário Camboriú em um circuito noturno, misto de calçamento e asfalto à beira-mar. Um grande passo pra mim que nunca havia saído de casa sozinho. Puxei o ritmo o tempo todo, pois não tinha idéia de revezamento e tática, mesmo assim fiquei em segundo lugar.
Também nunca poderia imaginar que ali, assistindo esta prova, estava minha futura esposa Luciane, que sempre esteve comigo nesses anos me apoiando, sempre minha companheira, mas que nesta ocasião estava torcendo contra, tenho que confessar! Mas começava assim uma vida a dois, totalmente dedicada ao ciclismo, que me rendeu muitas vitórias, minha linda filha Carolina, muitas viagens, muitos amigos, muitas decepções, muitas realizações, experiências inesquecíveis que está completando 20 anos, e que parece que começou ontem….
*Salete – cidade do interior de Santa Catarina com cerca de 7.000 habitantes
**O Müller teve um filho, Douglas que chegou a competir pela equipe de São Caetano do Sul, sendo uma das revelações em 2000. Após vencer o campeonato Paulista de Resistência sofreu um acidente fatal de moto em Rio do Sul – SC.

Em tempo:
Gostaria muito de agradecer aos amigos e fãs que me mandam e-mails, mensagens no orkut e no meu site e torcem pelos meus resultados e dos ciclistas brasileiros em geral. São várias mensagens de apoio, que nem sempre tenho tempo para responder, mas podem ter certeza que recebo com carinho, muitas vezes me emocionam e me incentivam a continuar fazendo parte deste difícil, mas maravilhoso esporte que amo tanto… Parabéns a todos!
Texto publicado na coluna Ciclismo a Fundo da Revista Bike Action
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