41 anos depois, um Brasileiro vence a Vuelta Ciclista de Uruguay

Magno Prado venceu a Volta do Uruguai 2012

Magno Prado venceu a Volta do Uruguai 2012

A Volta Ciclística do Uruguai é uma das mais antigas e tradicionais voltas da América. Disputada desde 1939 sempre na semana Santa, tem como grande dificuldade técnica o vento cruzado que sopra forte pelas terras Uruguaias. Cheguei a correr algumas vezes pela equipe Caloi nos anos 90 e fui uma vez vice-campeão, uma vez terceiro e uma vez quarto colocado na geral, sendo que em 1998 fui líder por alguns dias, mas terminei terceiro. Quem já correu a Volta do Uruguai sabe das dificuldades que é correr com vento cruzado. Lá, quando “cerra a escalera” não tem como andar na roda, tem que ajudar a puxar ou acaba ficando para trás. As equipes Brasileiras sempre estiveram presentes nesta volta em busca de ritmo de competição e como experiência para os ciclistas Brasileiros.

No entanto, o único Brasileiro que havia vencido a classificação geral desta prova até agora era Pedro de Souza pela equipe Caloi em 1971 que foi acompanhado ao pódio daquele ano pelo companheiro de equipe, Luis Carlos Flores que terminou em terceiro. Pedro de Souza também já havia sido vice-campeão em 1970 com Flores também em terceiro. Hernandes Quadri Jr também foi terceiro colocado em 1997.

O Sul Matogrossense de Dourados, Magno Prado Narareth, 26 anos de idade, voltou a colocar o Brasil no topo do pódio. Magno que tem conquistado ótimos resultados desde o início da temporada onde terminou em 7º no Tour de San Luis na Argentina e foi vice-campeão Pan-americano de contra-relógio em Mar Del Plata mês passado, assumiu a liderança no contra-relógio, onde também foi campeão, e manteve até o final, deixando o Americano Thomas Zirbel (Optum Kelly Benefits) a 18 segundos e Edgardo Simon (Padaria Real de Sorocaba) em terceiro a 26 segundos.

“Cerrar a escalera”

O vento cruzado faz com que o pelotão fique em forma de uma escada

O vento cruzado faz com que o pelotão fique em forma de uma escada

Na volta do Uruguai não existem serras, portanto toda a tática de corrida é voltada para a direção do vento. Correr com vento cruzado é muito mais difícil do que subir várias serras e os Uruguaios são especialistas nisso.

O termo “cerrar a escalera” seria traduzido como fechar a escada. Parece estranho, mas quando o vendo está cruzado (lateral), para poder pegar vácuo de outro atleta, não adianta ficar atrás, mas sim na lateral, com a roda dianteira na altura da pedivela do outro atleta, aí sim dá para se esconder do vento, formando um pelotão no formato de uma escada.

O problema é que devido a largura da estrada, apenas alguns ciclistas conseguem se aproveitar do vácuo, já que quando chega o final do acostamento não tem como andar do lado, somente atrás, o que não resolve muito. Para o ciclista se aproveitar do vácuo ele precisa entrar no revezamento do que parece ser uma escada rolante, onde cada atleta puxa por alguns metros e já dá lugar para o outro, ficando a maior parte do tempo no vácuo. E por incrível que pareça, puxar é melhor do que ficar na roda, pois neste revezamento o atleta puxa apenas alguns metros, fazendo que esta “escalera” ande em um ritmo muito forte, a mais de 50 km/hora. Quando um ciclista perde a roda, não consegue andar sozinho a mais de 30km/hora devido ao vento.

Quando falamos “cerrar a escalera” significa não deixar entrar neste revezamento mais atletas e apertar o ritmo ao máximo, fazendo com que o pelotão se quebre em diversas partes. Depois que o pelotão se quebra, formam-se várias “escaleras” e a guerra está feita para ver quem consegue vencer. Neste momento da prova vale muito a boa colocação no pelotão, pois que fica para trás, por mais forte que seja, geralmente perde muito tempo pois o grupo da frente sempre anda mais forte. Também é uma fase da prova muito perigosa onde ocorrem muitas quedas. Como os ciclistas tentam andar ao lado do atleta da sua frente, mas não há mais espaço lateral, quem fica atrás acaba andando pelo acostamento e quando há buracos, pedras ou até mesmo carros estacionados, acidentes são quase certos, por isso quem quer vencer precisa estar sempre na frente. Além disso, como “cerrar a escalera” depende da direção do vento, isso pode ocorrer já na largada, no meio da prova ou no final, por isso a importância de estar sempre bem colocado, um descuido e já era.

No ano de 1999, o italiano Tupak Casnedi da equipe MAPEI venceu a primeira etapa em uma fuga. Ele manteve a liderança por alguns dias com sua equipe sempre controlando o pelotão. Não havia tido nenhum dia com vento. Os jornalistas perguntavam para ele o que achava que poderia ocorrer no dia que tivesse vento cruzado, pois os Uruguaios costumam atacar neste dia. Ele respondeu que não teria nenhum problema, que a sua equipe estava preparada para controlar as fugas, falando até com certo desprezo. Pois chegou o dia em que amanheceu com chuva e um vento que deixava as árvores deitadas. Largamos em Melo em direção a Tacuarembo. No primeiro ataque em que os Uruguaios “cerraram a escalera”, todos os italianos da MAPEI ficaram cortados e o melhor colocado deles, que era o líder até então, chegou a mais de 12 minutos. Neste dia consegui chegar no primeiro grupo ficando na sexta colocação na etapa e terminei esta volta em 4º lugar. Depois dessa etapa, que foi uma das mais duras que corri até hoje, passaram a respeitar mais o ciclismo Uruguaio e a entender o termo “cerrar a escalera”.

Texto publicado na Revista Bike Action – Coluna Ciclismo a Fundo – Márcio May

 

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Uma resposta a 41 anos depois, um Brasileiro vence a Vuelta Ciclista de Uruguay

  1. afonso gentil ramos disse:

    Todos os ciclistas deveriam ler esta aula do marcio May , de como andar numa escalera.

    Para mim as provas disputdadas no Uruguya são mais duras que qualquer etapa do Tour de France.

    A etapa de hoje (15/07/12 ) do Tour de France , mostrou um poquinho de como se corre no Uruguay.

    Pena que lá não exista dinheiro, porem o amor do povo para com o ciclismo e para com os ciclistas é algo notável.

    Afonso Gentil Ramos
    Florianopolis SC

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