Não desista antes de tentar

A vida nos leva a aprender dia a pós dia, e uma das lições que aprendi na minha vida de ciclista é que não podemos desistir sem antes tentar. Vou contar algo que aconteceu comigo em 1997 na minha participação no Campeonato Panamericano de Ciclismo da Colômbia.

Pódio do Pan - Venezuela 1996 - 1. Márcio May, 2. Ruben Pegorin, 3. Jamil Suaiden

Em 1996 na Venezuela conquistei o título de Campeão Panamericano de Estrada em uma prova de 220 km. Eu estava muito bem preparado, pois fizemos um estágio de três meses na Europa e a equipe Brasileira trabalhou perfeitamente. Cheguei em uma fuga com o Argentino Ruben Pegorin e venci no sprint. Para coroar a nossa participação, o Brasiliense Jamil Suaiden bateu o sprint do pelotão e conquistou a medalha de bronze para o Brasil.

Um ano depois, mesmo sem ter feito estágio na Europa, me preparei ao máximo para tentar repetir o resultado no Panamericano que desta vez seria realizado na Colômbia. Quando pensamos em Colômbia, sempre imaginamos muitas montanhas, mas desta vez o Pan seria na região de Cali e tinha um percurso mais plano. Uns três dias antes da viagem descobri que precisava tomar a vacina para a febre amarela, procurei um posto de saúde, me vacinei e viajamos.

Já na Colômbia, na véspera da prova tive uma reação à vacina e senti muitas dores pelo corpo, como uma gripe muito forte e febre. Passei mal a noite toda, não consegui dormir, e pela manhã quando a equipe se preparava para ir para a prova, eu não tinha forças nem para tomar café da manhã. Eu estava destruído e desolado, pois havia treinado muito para aquela prova. Não queria nem sair do hotel, mas o nosso técnico, Antônio Carlos Silvestre, insistiu. “Vamos para a prova, você está mal, mas pode ajudar a equipe nos primeiros quilômetros e depois se não conseguir, pode abandonar, mas vamos lá!” A equipe era formada por apenas três ciclistas, eu, Daniel Rogelin e Hernandes Quadri.

Depois da insistência, me troquei e fui para a prova com o objetivo de ajudar a equipe no início e depois abandonar. Cheguei a combinar com o Argentino Ruben Pegorin, o qual foi segundo no Pan que eu venci, em abandonarmos juntos, pois como a prova passaria perto do hotel por volta dos 100 km e ele estava focado em tentar vencer o contra-relógio que seria dois dias depois. Como ele não queria se desgastar muito, já estava programado que iria abandonar por volta dos 100 km.

Quando chegamos à largada, chegaram diversos repórteres das rádios, jornais e TV que vieram me entrevistar, pois como eu era o atual campeão,  era considerado o favorito para vencer novamente. Em todas as entrevistas falei que estava mal por causa da vacina e que não estava em condições de competir. E eu realmente estava muito mal.

Bem, largamos a prova que tinha 180 km e o ritmo começou tranquilo. Logo com uns 20 km eu estava precisando fazer um “xixi”, pois tomei muita água por causa da febre. Como a prova não estava em um ritmo muito intenso, parei na beira da estrada e esvaziei a bexiga. A caravana de apoio não era muito grande e quando voltei a pedalar já haviam passado todos os carros. Saí em busca do pelotão e quando estava alcançando o último carro da caravana, o que torna mais fácil de retornar ao pelotão, pois é permitido pegar vácuo dos carros de apoio por alguns metros passando de carro em carro quando você fura um pneu, cai ou faz as necessidades como era o meu caso. Porém neste instante ocorreram muitos ataques no pelotão e o ritmo aumentou demais fazendo com que eu não conseguisse alcançar o último carro. Forcei o máximo que podia por mais algum tempo mas como já não estava me sentindo bem, pensei que não era mais capaz de alcançar o pelotão e “joguei a toalha”, ia abandonar ali mesmo. Mas foi só eu diminuir o ritmo que parecia que o pelotão quisesse me esperar, cessaram os ataques, o ritmo diminuiu e acabei alcançando novamente.

Pronto, voltei para a prova. Neste instante eu já havia superado duas tentativas de desistir. Uma antes de largar e agora nesta perseguição que iria virar piada se eu tivesse parado por aí. Mas algo me obrigava a continuar. Os quilômetros foram passando e eu continuava com as dores no corpo, porém não aumentavam com o esforço, mas também não diminuíam.

Por volta dos 100 km o Argentino Pegorin me avisou: “Vamos para o hotel?” Nesta hora eu disse para ele: “Ainda consigo ir mais um pouco, vou tentar ajudar a equipe e paro mais para frente”. Ele pegou saiu da prova em direção ao hotel.

Logo em seguida rolaram vários ataques e abriu uma fuga com cerca de uns oito atletas. Eles ainda estavam pertos e como não havia ninguém do Brasil na fuga pensei: “Vou pra ponta do pelotão, dou tudo que posso para encostar lá na fuga e depois abandono”.  Comecei a puxar o mais forte que eu conseguia e quando eu estava quase alcançando os escapados, outros ciclistas começaram a gritar e passando por mim: “Vamos que o pelotão quebrou”. Olhei ao meu lado, havia apenas sete ciclistas que já passaram forçando o ritmo e não havia mais ninguém do Brasil. Fui junto, logo já alcançamos os outros e formamos um grupo de 15 atletas. Naquela hora fiquei apavorado, afinal eu era o único Brasileiro no meio de três Colombianos, três Chilenos, três Venezuelanos, 01 Mexicano e outros mais e estava pronto para desistir da prova por ali mesmo. Todos revezavam a fundo e eu era obrigado a entrar no revezamento, pois senão deixavam a fuga abrir cortes e ficava mais difícil ainda para mim.

Eu vinha sofrendo demais, mas agora não podia mais parar, pois a fuga foi abrindo vantagem e logo já estávamos com mais de 3 minutos em relação ao pelotão e eu era a única chance do Brasil.

Neste momento comecei a pensar diferente, se vim até aqui, com 160 km de prova, agora vou pro tudo ou nada. E assim foi, muitos ataques ocorreram nos últimos 20 km. Tentei usar a cabeça para não me desgastar demais e saltar nos ataques nos momentos certos. Faltando pouco para a chegada estávamos os 15 juntos para disputar o sprint final, o que nunca foi o meu forte. Posicionei-me e arranquei as últimas forças lá do fundo. Não venci, mas acabei a prova em 2º lugar a menos de meia roda do campeão, o Mexicano Eduardo Uribe.

Foi superação total, não imaginava que eu era capaz de superar tudo isso. Fui dar entrevistas e os repórteres brincavam dizendo que eu estava escondendo o jogo, por isso falei que estava mal. Quando cheguei ao hotel, encontrei o Argentino Pegorin que disse: “Você não iria abandonar? Quando cheguei aqui e escutei na rádio que você estava na fuga não acreditei.” E pensei comigo mesmo: Nem eu acreditava, mas graças ao incentivo do meu técnico e dos meus colegas que não me deixaram desistir antes de tentar, acabei trazendo a única medalha do Brasil daquele Pan.

Foi o segundo lugar mais comemorado, pois valeu mais do que uma vitória e uma grande lição. Não desista antes de tentar, pois nem nós sabemos do que somos capazes!

Até a próxima.

 

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2 respostas a Não desista antes de tentar

  1. MARCIO HOBOLD disse:

    Perdemos mais tempo procurando desculpas para não fazer algo, do que nos motivando a seguir em frente.
    É inspirador ter conhecimento de fatos da historia de um atleta que, como você, teve grandes conquistas em sua carreira. Quem não conhece a vida de ciclista, acha que é só subir na bicicleta e pedalar!
    Parabéns por todas as suas vitorias e superações.
    No DESAFIO MARCIO MAY 2014 a gente se vê!
    Um abraço!

  2. Villmar Linhares - Vili disse:

    Marcio, lembro quando voce contou este acontecimento la no meu apartamento em Rio do Sul….
    Sei que eh apenas uma das muitas de superacao e bravura e que provam o valor e a grandeza do atleta que voce representou e que ainda inspira muitos ciclistas.
    Escreva mais sobre estas etapas magnificas da tua vida.
    Aposto que dariam um livro!
    Abraco meu amigo!

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